segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os idosos-"vivos".

"Meu dia há de chegar..."



A vinheta sobe. Iniciava mais uma edição do Jornal C...

“Boa noite. Após anos de total indiferença por partes dos jovens, os idosos decidiram dar o troco. E o exemplo maior está nos coletivos que, agora tendo uma divisão à frente com lugares reservados, eles estrategicamente negligenciam essa oportunidade dada pelo Estado e, sem remorso ou piedade, pedem para o condutor abrir a porta lateral, ocupando bancos perfeitamente legais para os cidadãos que honestamente pagaram passagem esperando sentar-se. Detalhe: eles não vão segurar seus pertences”.

"Ah! Não é uma linda manhã de segunda?"

Aceita Jesus?



Ela fala e fala, mas não ouço nada. O seu encanto não me permite. A boca carnuda movimenta-se, entoando magia, do tipo sensual, e absorto acompanho ela evolucionar. Nada mais me resta a não ser admirar.

Daí então, ele surge. Em pé, estacionado ao meu lado, em sua roupa impecável.
          
“O senhor aceita Jesus?”

Pensei ter sido claro na primeira vez. Talvez ele não houvesse notado minha veemente negativa. Só restava novamente dar-lhe a resposta anteriormente proferida:

“Já disse que não”.

“Por que não, senhor? Todos aqui aceitaram. Por que tanto desdém. Conheça, pelo menos. Eu garanto que pensará diferente”, sua audaciosa insistência obrigou-me a confessar:

“Olha... eu já estive no Maranhão e não gostei do sabor, tá bom? Agora, se me der licença, a senhorita estava falando...”

xxx

Talvez prefiram Leão de Judá Cola. Que tal?







terça-feira, 20 de agosto de 2013

Mal entendido.




Jovens, impetuosos em suas ações, intensos em suas paixões, encontram-se num banco de praça.


"Por que você me chamou assim, na surdina? Já faz um tempo que eu não te via. Parece até estar me evitando".


"Estava precisando arejar a cabeça. Refletir sobre o que me acontecera".


"E isso me envolve?"


"Sim".


"Então desembucha!"


"Nem sei como te dizer".


"Apenas fale. O que quer que seja, eu aguento. Namoramos há quanto tempo? Quase um ano? Estou aqui por você".


"Tudo bem... Não há uma forma fácil de dizer isso, então lá vai: eu estou grávida de você!"


"... Como? Como isso é possível? Não há cabimento! Desculpe-me, mas você deve estar delirando".


"É seu. Tenho certeza".


"Manuela, não pode ser!"


"Como pode ter tanta certeza?"


"PelamordeDeus, Manuela, EU SOU MULHER, esqueceu?"






sábado, 17 de agosto de 2013

Velocidade improvável.

Mais um dia como qualquer outro, enfurnado num ônibus que, pelo menos, ainda dispõe de lugares vagos.


Espere aí... Que burburinho é aquele ali na frente? Um homem que não me é estranho está tentando convencer o motorista de algo. Não pode ser um assalto... Há um diálogo e o cobrador parece tranquilo, diria até emocionado. Ora, ele deixou o homem saltar a catraca.


Puta merda, é o Keanu Reeves!


Eita... Se ele está numa condução coletiva só pode significar uma coisa...




"Pessoal...", ele tá falando. Por favor, Keanu, que não seja o que eu estou pensando. Por favor, por favor. "Há uma bomba neste ônibus!". Puta que pariu! Se a gente entrar num congestionamento (e a gente vai), morreremos! "Devemos manter uma velocidade de 40 km/h e nada de ruim acontecerá conosco". Fudeu!


Como era esperado, o desespero, mesmo retardado, veio com força. Todos sabiam que numa esquina fatídica encontraríamos nosso fim. É, Keanu... Pegou o ônibus errado desta vez. Aqui não é Los Angeles, meu chapa. É Recife. Um congestionamento a cada avenida.


Meu Deus, um passageiro está tentando sair pela janela. Felizmente, ou não, ele foi impedido.


"Abre a porta lateral, môto, eu quero descer!", as súplicas beiravam à loucura. Podia ver a confusão mental do Keanu Reeves, que não entendia a falta de fé nas pessoas, afinal, ele era um herói!


Opa, um militante enrustido declarou guerra. De arma em punho, apontava ao léu. Queria por que queria sair e teria que ser agora! Um disparo! Deus... atingiu o motorista. Só pode ser brincadeira.... Falta a Sandra Bullock assumir a direção... Não acredito. Ela estava aqui o tempo todo... Eu estava dividindo o mesmo espaço precário de uma condução com a Sandra Bullock e agora ela dirige apesar de ter perdido 20 pontos na carteira e só ter habilitação AB!



E agora, o que faltava acontecer? Aguardar carros de polícia nos abrir caminho entre as fileiras estáticas de veículos? Pronto! Aí estão eles! Maravilha! Eu só posso estar sonhado, só pode! E os helicópteros? Deem-me os helicópteros! Será que ouço um? Ou serão dois? E o da imprensa? Lá estão!


Bem... agora nos dirigirão para o aeroporto e ficaremos lá, dando voltas, até, um por um, sermos resgatados.


"Por favor", falo com a pessoa atônita ao meu lado, "Acorde-me quando estivermos saindo daqui, sim?"


Nada como mais um dia caótico no trânsito.



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Duro de estragar.

Com as baixas temperaturas estimulando grossos agasalhos, ele dirigiu-se ao guarda-roupa e resgatou sua costumeira jaqueta de couro do ostracismo e, ao colocá-la, sentiu um volume no bolso esquerdo. Parecia estar embrulhado em papel; era macio e oleoso. Seus olhos fixaram-se no que parecia um cheeseburger!


Como aquilo viera parar ali? Recordava-se da última vez que utilizara a peça... Longos meses separavam os dois momentos. O alimento deveria estar podre, atraindo todo tipo de bicho, e não assim, intocável, como se parecesse recente... Será que seus amigos eram responsáveis por este misterioso episódio? Possível, porém, improvável. Eles não poderiam prever que usaria a jaqueta antes que o cheeseburger estragasse, danificando um bem de alta estima, então como...?



Foi então que ele notou uma discrepância: as mangas estavam mais curtas que o normal! Era a roupa de outra pessoa!


Satisfeito com a descoberta e curioso com a durabilidade de uma comida de "consumo imediato", achou uma boa ideia divulgar o acontecido. Com a câmera do celular, filmou-se relatando o ocorrido, apenas omitindo a parte de que a jaqueta não lhe pertencia. Depois, contente com o resultado, postou na internet e compartilhou com os "amigos" das redes sociais. Agora só restava aguardar...


A repercussão foi maior do que esperava, principalmente porque manchava uma empresa de grande nome. Contudo, o assédio corporativo com fim compensatório e impeditivo esperado não veio.


Em compensação, atraiu uma atenção indesejada. O verdadeiro dono da vestimenta bateu na porta com violência e, diante do revoltante homem taciturno e de grossas sobrancelhas, ele apenas pode questionar, desconfiado, o motivo de tamanha fúria.


"Você não imagina a loucura que foi chegar lá sem a porra do cheeseburger dela! Ela ficou puta, cara! Puta! E eu não tinha mais dinheiro e nem disposição para ir do outro lado da cidade comprar outro! Resultado: fui abandonado! Você pode imaginar isso: rompimento por uma droga de hambúrguer... Bem que eu deveria ter desconfiado quando precisei puxar insistentemente as mangas! Sabia que não deveria ter deixado minha jaqueta naquele cabideiro na entrada da lanchonete... Burro!"


"E o que você quer que faça? Culpar-me? Só recentemente descobri a troca..."


O visitante, respirando profundamente, gradativamente se acalmou. Era uma cólera prescrita. Não havia mais nada a fazer, a não ser...


"Você ainda tá com o cheeseburger aí?"


"Sim, é meu troféu. Por quê?"


"Pode ir se despedindo dele. Ela queria tanto na época que agora poderei finalmente esfregá-lo na cara da vadia".



xxxxxxx



Curiosidade: http://virgula.uol.com.br/inacreditavel/curiosidades/hamburguer-mais-velho-do-mundo-tem-14-anos-de-idade-mas-nao-aparenta

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O rubor de Isabelle.

Retirado de: http://www.olharesdaminhaalma.com/2009/02/morena-braga-mae-1999-grafite.html



Ela, após 26 anos de aparente normalidade, adquiriu um sério problema. Era atormentada por um raro tipo de alergia. Sua pele ruborizava ao menor contato com qualquer tipo de sabonete. Até mesmo sabão era impossível usar. Procurar um dermatologista era a atitude mais plausível.


"Por favor, senhorita Isabelle, diga-me o motivo que a levou a me procurar?"


E o médico, sem olhar para ela, pareceu absorto enquanto anotava com afinco algumas informações durante todo o angustiante relato. Por fim, chegou a uma solução:


"Infelizmente, não posso lhe dar um diagnóstico preciso. Há alguns exames que serão necessários fazer. Só assim poderei atestar um veredicto. Estamos acertados?"


Fazer o quê, ela pensou, confirmando num dar de ombros.


Só quando estava saindo do edifício se deu conta de um detalhe: o quanto tudo isso demoraria. Como ela viveria até lá? Teria que suportar a vermelhidão a cada banho? Uma pele acentuadamente rubra que duraria horas, atraindo olhares de repulsa, curiosidade e até, pasmem, volúpia! Certamente não era o cenário ideal, mas sua vida social não sucumbiria diante deste empecilho.


Como era esperado, as consultas foram marcadas em dias bem adiante no tempo, num intervalo de semanas. Até lá, o dia-a-dia fora marcado de vexaminosos desfiles, cujo salto parecia querer partir-se à menor pressão. Contudo, restava-lhe a indiferença forçada; o casulo embaçador de emoções.


As pessoas de seu círculo de amizades mostravam-se solidárias. Compaixão e preocupação mesclavam-se numa profusão de sentimentos exagerados. Mas, ainda assim, ela resistiu pois nada mais restava.


No dia anterior ao primeiro exame, uma ligação:


"Estou falando com a senhora Isabelle?"


Confirmação e receio. Expectativa nas alturas.


"Infelizmente, devido à manifestação programada para amanhã, teremos que reagendá-la. Temos um espaço para a próxima quarta, pela manhã. A senhora tem preferência por outro dia?"


Ela tinha que aceitar. Não havia segundas opções ali.


E assim, outras consultas sucederam-se num encontro desastrado com eventos públicos conturbados, atrasando o que não poderia ser atrasado.


Mas, assim como o alpinista determinado alcança o alto do pico, ela teve seus resultados.


Marcar uma visita ao dermatologista mostrou-se mais dificultoso do que esperava, devido aos compromissos deste com mais três instituições, na qual se revezava numa sucessão de atropelos. E após angariar um dia na agenda sufocante do médico, ela já não achava que seria problema conviver com aquele mal, principalmente por não haver o incômodo comichão costumeiro e pela inexistência de brotoejas. Estava decidida: independente das informações, não ligaria para aquele infortúnio.


Dois meses e sete dias depois. A visita tão ambicionada no início, que gradativamente mudou para uma simples obrigação, enfim chegara.


"Isabelle... Observando atentamente estes exames, vejo que tenho más notícias".


A desdenhosa resposta dela surpreendeu o homem. Pode destrinchar tudo, doutor, nada do que diga me afetará. 




E realmente não afetou. Toda a verborrágica explicação do especialista não fez sequer uma diminuta ruga de pasmo. Ao contrário, ela parecia estar absorta, como que mentalizando o que viria a seguir. Assim sou, pensou, e dane-se o que os outros irão pensar.


Um sorriso pairou no consultório, abalando um profissional mesmo depois da partida. Olheiros aguçaram a vista, com o veemente e constrangido julgamento sussurrante. E uma mulher, num vermelho apoteótico, bailava agora numa única e sublime performance.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Passamento no passatempo.



"ACUDA!", Bartolomeu agiu antes que o amigo colidisse no chão de cimento queimado.

"Jesus!", exclamou o ateísta Francisco que, escorado nas costas do sofá, apenas se permitiu um espasmódico movimento de inútil ação.

"O que está acontecendo com ele?", conseguiu proferir o último integrante do grupo que se reuniu para uma partida de xadrez multinível, Joaquim.

"Parece um ataque epilético!", segurando com firmeza a cabeça do convulsionado, Bartolomeu pediu um travesseiro e, obtendo-o, deitou o vitimado de lado.

"Nunca pensei que xadrez pudesse desencadear um estado tão lastimável", disse Francisco, que agora sentara com mórbida curiosidade, com o queixo apoiado nas mãos.

"Ele vai demorar muito nessa tremedeira?", era a vez de Joaquim jogar.

"Não seja insensível!", a indignação era latente em Bartolomeu.

"Vamos aguardar", sussurrou Francisco.

Alguns minutos mais tarde, Irineu foi erguido com a ajuda de Bartolomeu e, limpando a baba que escapava, esclareceu para os presentes:

"Sabia que não devia ter tomado leite depois de comer melancia".