terça-feira, 24 de setembro de 2013

Promessas.

Astolfo, aspirante a escritor, prometeu que só cortaria o cabelo quando concluísse o seu primeiro romance. Hoje, ele é mundialmente conhecido por ostentar a mais vasta cabeleira, superando até o renomado indiano Numvopelanandha.


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Discurso funéreo verdadeiro.



Os lamentos escoavam de narizes congestionados. O preto imperava, obscurecendo ainda mais este dia cinzento. O velório encerrava e o pequeno palanque estava disponível para quem quisesse homenagear o falecido. Silvino se adiantou.

Pigarreou, ajeitando as mangas do paletó, suspirou e daí começou:

"Desejaria a todos vocês um bom dia se tal ato não fosse considerado uma afronta. Na verdade, não me preocupo com o que possa parecer. Sinceramente, creio que a maioria dos presentes gostaria de ter a coragem de estar aqui, pronto para desabafar, esclarecendo para os que não tiveram a 'oportunidade' de conhecer Firmino, esse grandessíssimo filho da puta, o quanto ele demorou para encontrar a justiça divina".

Bocas penderam e houve um desmaio, mas Silvino não desanimou. Pelo contrário, encheu o peito e continuou:

"É um absurdo a hipocrisia nos sentimentos depositados a uma pessoa quando bate as botas. Mesmo que em vida tenha prejudicado um sem número de pessoas de boa índole. E o fato dele ser político agrava a situação!".

Familiares até tentaram parar com aquele ultraje, mas o interesse pareceu percorrer os presentes, que impediram a interrupção.

"Minha gente, atentem para o que eu digo: Firmino nunca foi um modelo de ética; nem da moral e dos bons costumes. Traía a mulher praticamente todos os dias, com as putas mais feias de um cabaré seboso na periferia da cidade, e voltava para casa com o rabo cheio de cachaça, insultando a pobre, que nada podia contra os milhares de quilos que este infeliz ostentava e usava para espancá-la".

Os filhos, que antes romperam numa fúria justificada, agora fitavam a mãe com lágrimas nos olhos e não viram sentido na continuidade dos seus atos pregressos; decidiram, ao invés disso, apoiá-la num abraço apertado.

"Além disso, roubava dos cofres públicos na maior cara-de-pau, e ainda tinha a petulância de pedir nossos votos em época de eleição, jurando para Deus e o mundo mudanças que nunca ocorreriam".

Uma pausa para relembrarem.

"Por isso, senhores e senhoras aqui presentes, este facínora não merece as suas condolências. O tempo foi piedoso com ele e cruel com a gente, que tivemos que aguentá-lo por uma vida inteira. Para este merda, desejo firmemente que as larvas banqueteiem-se com seu corpo deformado e que nunca mais falemos deste bosta, que apenas empesteou nossa existência com sua presença. E tenho dito!"

Após o discurso, todos se retiraram do cemitério, deixando o coveiro na sua penosa tarefa de cobrir o defunto com a terra revolvida que se amontoava ao lado da cova. Enquanto enfiava a pá no monte, cantarolou:

"Não tava morto, só andava falecido..."




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Há vagas (com experiência).




Ao ser chamado, ele atravessou a pequena porta de madeira do saguão para o espaçoso escritório do selecionador.

“Por favor, sente-se”, apontou, em pé, para uma cadeira logo à frente.

Ao acomodar-se, com a pasta recheada de papéis sobre o colo, ele tentou não aparentar nervossismo.

O recrutador, após ordenar rapidamente o material sobre a mesa, cruzou os dedos, soltou um pigarro abafado e falou:

“Bem, senhor...”

“Jonas. Jonas Moreira”.

“Certo... Senhor Moreira. Está preparado?”


Como que despertado de um transe, ele levou o seu extenso currículo em direção ao recrutador que, ao recebê-lo, questionou-o:

“E isso, o que seria?”

“M-meu currículo. Verá que estou apto a assumir a vaga que os senhores estão oferecendo”.

“Não entendo, Jo... Posso chamá-lo de Jonas?”

“Sim, claro”.

“Bem, Jonas, creio que há um equívoco aqui”.

“Por quê?”

“Quando colocamos o anúncio no jornal, ao falarmos de 'experiência', não nos referiámos a isto aqui”, bateu rigidamente o dedo na pasta e depois encostou-se na poltrona. “Não não. Falávamos de uma experiência de verdade”.

“Continuo sem entender seu ponto de vista, senhor”, a inquietude instalou-se nele.

O recrutador respirou fundo, com o enfado sobressaindo-se.

“Queremos que o senhor, Jonas Moreira, faça parte de uma experiência (com todas as etapas bem controladas, vale salientar) para que os diretores do conselho percebam o potencial do creme anti-idade que estamos desenvolvendo”.

Jonas levantou-se, arfando, ultrajado com tal proposta. E iria embora com sua grossa pasta se não fosse por dois seguranças que surgiram repentinamente e o levaram arrastado para uma câmara contígua.

Enquanto era carregado, em meio às esperneações, ouviu o recrutador dizer:

“Desculpe, senhor Jonas. Poderíamos dispensá-lo, porém, não há mais candidatos”.

           
Depois disso, Jonas nunca mais quis participar de seleções de emprego. E nunca mais envelheceu.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Um breve despertar (A batalha).

Acorda!

O corpo estremece, que de bruços beija o gramado viciado do sangue derramado. O metal da armadura pesa, e comprime a pele. O frio machuca os ferimentos, que abertos teimam em sangrar. É preciso levantar para não ter o mesmo destino das centenas que, ao redor, formam o cenário macabro de uma guerra sem vitoriosos.

Não há gemidos, tão pouco, apelos.

A espada partira e o escudo sumira. Onde se apoiaria? Os músculos, enrijecidos, deviam encontrar forças ocultas; sobrepor a cãibra e ignorar a dor dos cortes. É suplicante o levantar. Lágrimas inundam a face imunda; o cabelo úmido cola na testa. Os dentes se chocam e os olhos se fecham, mas o moribundo no fim está erguido.

A cada respirar, uma pontada nas costelas. Corpos esfacelados até onde a vista alcança.

Uma fagulha de arrependimento num movimento débil de cruz e a surpresa de uma seta transpassada, e de sua ponta a gotejar o líquido rubro que escapa de seu peito. Ainda dá para virar e ver o menino, arquejante, desfazendo a posição de ataque.

Falta ar. A vista embaça. O abraço da morte se fecha.

Dorme...


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Ceticismo.



O casal, deitado na grama, observava o céu, límpido na sua imensidão azul. De repente, o questionamento feminino ascendeu da mudez, rompendo sua majestade:

“Você acredita em OVNIs?”

O namorado, incrédulo, também concluiu sua frase com uma interrogação.

“Por que isso agora?”

“Ah, sempre me veio à mente esse grande mistério que assola a comunidade científica moderna”.

“Você... acredita?”

“Não entendo essa hesitação”, ela ergueu o tronco, apoiando-se no cotovelo.

“Só estou surpreso por você supor que essas coisas existam”, ele fez o mesmo.

“... Amarildo, não cogito a possibilidade de você, que tanto preza pelo conhecimento amplo, sem preconceitos, sequer imaginar a ínfima presença de seres extraterrestres visitando o nosso planeta?!”, sentou-se.

“Especulações, Mariana... trata-se apenas disso”, assim como ele.

Mariana pendia a boca de consternação, mas também havia outra razão: um objeto prateado de forma discoide bailava no firmamento.

“Amarildo, homem de Deus, olha ali!”, a voz nervosa destoou com a subida brusca até ficar em pé.

Ele fitou para onde o dedo em riste (e trêmulo) dela apontava.

“Ah, é um balão meteorológico”, disse calmamente, enquanto se levantava.

“Como pode ser tão cabeça-dura! Veja o movimento que ele está fazendo! Nenhum balão faz aquilo!”

“Então são gases do pântano...”

“Que gases o quê! Além do mais, por aqui não existe pântano!”

“Hum... enganei-me”.

“É claro!”

“Sem dúvida é um balão”.

“Puta merda, Amarildo!”

“Olha a boca...”

O disco fez uma curva brusca e dirigiu-se para próximo deles, pousando com leveza.

“Amarildo! Ele tá descendo!”

“Deve haver algum defeito na fuselagem”.

“Uma portinhola está abrindo, uma rampa está saindo!”

“Deve ser uma maneira para que ninguém possa reutilizá-lo”.

“Dois seres estão vindo em nossa direção!”

“Balões dentro do balão”.
             
Os dois humanoides, do tamanho de crianças, com grandes cabeças e olhos negros inexpressivos, avançam silenciosamente. Mariana não conseguia conter a excitação:
          
“Oh meu Deus Oh meu Deus!”
             
“Calma, Mariana, são apenas peças autônomas que vieram nos cumprimentar”.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Somente para emergências.





Ela passava por uma rua falando ao telefone celular quando ouviu uma voz.

 “Senhorita...”

Pedindo licença à pessoa que conversava, voltou-se na direção da voz e, vistoriando rapidamente as imediações, surpresa constatou que não havia ninguém.

Preocupada, ia voltar a atenção para a amiga do outro lado da linha quando, novamente, aquela voz fantasma pediu:

“Poderia não me ignorar, senhorita?”
  
 Ela ficou paralisada, mas ainda pode dizer à amiga:

 “Sofia, acho que eu estou ouvindo coisas...”

“Que coisas, Laura?”, e, diante da mudez, apelou: “Fala, mulher!”

“Não sei”, conseguiu dizer. “Não há viva alma aqui, só um orelhão”.

“Até que enfim me percebeu!”, suspirou a cabina telefônica, cujas condições precárias davam-lhe um aspecto antigo, apesar de seu designer vanguardista.

“Sofia, pirei! Eu acho que o orelhão falou comigo!”

“Não só falei como continuo falando”, respondeu, injuriado. “E dá para deixar sua amiga fora de nossa conversa? Onde está sua educação, garota? Só quero dar uma palavrinha contigo”.

Laura não podia ser indiferente a tal acontecimento, por isso, despediu-se de Sofia abruptamente.

“Muito bem. Agora, por favor, aproxime-se”, a bela sonoridade grave do orelhão encantava.

O telefone dela tocou. Foi verificar. Era Sofia.

“Deixa tocar, Laura. Agora você fala comigo, está bem?”

Apesar de hipnotizada pela curiosidade, a garota não desdenhou a possibilidade daquilo ser um trote. Chegou com cuidado e, uma vez sob o abrigo, procurou por qualquer objeto que provasse a fraude daquilo.

De novo, seu celular entoou insistentemente, distraindo-a por um instante.

“É por isso que estou esquecido”, lamentou-se o orelhão. “Esse tal de celular, uma praga que se espalhou como fogo em mato seco, tem me substituído a ponto de eu ser totalmente ignorado. É triste, jovem... Antes, éramos vítimas de vândalos; hoje, até eles nos abandonaram. Veja o cúmulo da apelação a que cheguei... Depender da atenção de arruaceiros”.

Laura, incrivelmente, sentiu a amargura do objeto. Era quase impossível não sentir.

“Não há indiferença que segure uma nostalgia bem enraizada”, continuou, melancólico, o orelhão. “Estou banhado dela. Da lembrança constante dos tempos áureos. Como quando as companhias estimulavam o meu uso com cartões colecionáveis. Hoje, o que se vê, são apenas paródias sem qualquer lampejo de criatividade. Além do mais, não dá para competir com as promoções que se sobrepõem na concorrência acirrada das empresas. Era apenas uma questão de tempo até eu ser relegado a casos de emergência. Um objeto de museu sem público. Um ermitão das ruas”.

“O que eu posso fazer para ajudá-lo?”, a oferta era sincera.

“Nada, jovem. Eu queria apenas desabafar. Por isso, obrigado”.

Disso, não houve mais som. Ele estava novamente calado, talvez para sempre.

Laura não segurou as lágrimas e foi com a voz lacrimosa que enfim atendeu ao celular que persistia por sua atenção.

“Laura? Mulher, você tá legal? O que houve, meu Deus?!”

“Nada, sofia”.

“Como nada? Você tá chorando! Explica isso direito!”

Mas como expressar toda a comoção que lhe foi atirada para as mãos que, ocupadas, seguravam compromissos inadiáveis, entretenimento imediato e alta acessibilidade?


02 de Setembro de 2013.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os idosos-"vivos".

"Meu dia há de chegar..."



A vinheta sobe. Iniciava mais uma edição do Jornal C...

“Boa noite. Após anos de total indiferença por partes dos jovens, os idosos decidiram dar o troco. E o exemplo maior está nos coletivos que, agora tendo uma divisão à frente com lugares reservados, eles estrategicamente negligenciam essa oportunidade dada pelo Estado e, sem remorso ou piedade, pedem para o condutor abrir a porta lateral, ocupando bancos perfeitamente legais para os cidadãos que honestamente pagaram passagem esperando sentar-se. Detalhe: eles não vão segurar seus pertences”.

"Ah! Não é uma linda manhã de segunda?"