sexta-feira, 13 de abril de 2012

A incrível transformação do senhor J.

A história a seguir é baseado em fatos ou talvez seja apenas um devaneio muito forte que acabou se manifestando na realidade.


Senhor J. ainda não era um senhor propriamente dito (segundo a Constituição) quando lhe veio a epifania. Talvez a experimentação de certos alucinógenos tenham desobstruído o caminho para que ele pudesse ver a iluminação, ou algo tenha simplesmente pifado em sua mente, mas o bem da verdade é que ninguém pode dizer com certeza o que o levou a arrancar a TV da tomada, levá-la para fora e jogá-la com toda fúria no chão.

Para os pasmados vizinhos, aquilo significava o princípio de uma intervenção, com direito a camisa-de-força e remédios controlados. Contudo, ninguém se manifestou a respeito e deixaram-lhe seguir o curso natural de sua indignação contra o sistema.

Poucos dias depois, ele sumiu. A polícia não recebeu qualquer queixa de seu desaparecimento nas duas semanas seguintes, até que alguém se dignificou em relatar o silêncio mortal que passou a advir de uma casa onde antes havia um constante movimento.

Nada foi encontrado. Parcos pertences empoeirados era tudo que sobrara e não havia parentes conhecidos que pudessem ser alertados do caso.

Assim, a simples menção ao senhor J. fora energicamente suprimido por quem não gostara de suas últimas atitudes antes de desaparecer, deixando para os supostos colegas a tênue lembrança de seu semblante.

Com o passar dos meses, não havia mais viva'lma que recordasse do atormentado senhor J. Até que, para a estupefação de todos, ele regressou.

Uma devastadora transformação se abatera sobre o senhor J. e era difícil não comentar. Antes ele era apenas mais um jovem atribulado de calças jeans e camisa pólo, agora ele era um misto de hippie com mendigo que se auto intitula "Natureza".

Quando de sua impactante volta, a nudez que ostentava fê-lo alvo de almas caridosas, que lhe doaram peças de vestuário. Após cobrir suas vergonhas, passou a viver perambulando pela cidade, tentando vender bijuterias feitas com material reciclado. Porém, sua mobilidade não era constante, e muitas vezes permanecia na praça do Relógio, divagando com quem se dispusesse a conversar.


Sua aparência e odor não permitia novas amizades; os velhos conhecidos compadeciam de sua situação, às vezes tentando apaziguar o desconforto com chacota e assuntos irrelevantes.

No fundo, o ex-senhor J. não estava completamente acessível aos mundanos. "Natureza" transcendia em suas ideias incompreensíveis e sua indiferença às opiniões alheias quanto a seu aspecto físico faziam-no dele um ser aparte, alguém que encontrou o êxtase da vivência, descartando o obviedade da loucura cotidiana; ele era simplesmente uma entidade, a própria natureza. Ou só mais um jovem que se rendeu às drogas e insandeceu.

Independente dos pontos de vista, "Natureza" reinou durante um curto período, vindo novamente a desaparecer. Atualmente, ninguém sabe onde está.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Saga de um vendedor em tópicos.



1. O pai tem a conversa mais séria com o filho desde muito tempo:

“Por que, meu filho, de todas as profissões idiotas existentes no mundo, você teve a imbecilidade de querer seguir carreira como vendedor de pasta de dentes? É claro que não me refiro ao 'representante' de alguma grande empresa, que intermedeia seu produto para supermercados. Não! Falo de você tomar a decisão de vendê-lo de porta em porta, como um caixeiro-viajante!”



2. A expectativa é visível no treinamento.

“Todos vocês aqui, que se dispuseram de 30 horas de suas vidas neste treinamento, não se arrependerão do investimento. Garanto que, de agora em diante, suas vidas apenas tenderão ao autoaperfeiçoamento e sucesso!”

3. As primeiras tentativas.

“Desculpe, meu jovem, mas não tenho interesse nesse tipo de produto.”
           
“Ora, se eu quiser uma pasta de dente, eu mesmo vou ao supermercado e compro.”

“Mas não tem flúor...”

“Cara, você por acaso é louco?”

4. A empolgação é abalada.

“Eu disse a você. Eu sabia que isso ia dar merda! Cara, sou teu amigo, pode confiar em mim quando eu te digo: vai procurar um emprego de verdade!”

5. O desânimo se alastra.

“Oh, Victor! Será que seu pai e eu colocamos fé em demasia em você?”

6. Últimos resquícios de coragem.

“Essa ideia não é de todo mal, mas entenda: ninguém vai querer comprar, rapaz. Sabe o que eles pensam? Que talvez esse produto não seja regulamentado, testado. Confiança é algo difícil de se conseguir. Sem uma marca famosa que o apoie (o que eu duvido), esse tipo de abordagem é inútil. Além do mais, convenhamos, vender pasta de dente de porta em porta é realmente necessário? Enciclopédia, até que vai, mas creme dental?”

7. Desilusão total.

“Não há reembolso e não estamos aceitando devolução de produto. O senhor assinou um termo que o impede de fazer o que esta tentando agora. Por favor, peço que saia agora.”

8. À bancarrota!

“Eu já disse ao senhor! Por favor, saia, agora! Segurança, compareça a sala 03, imediatamente!”